• Francisco Weyl

Nem todo cinema faz guerrilha

O cinema de guerrilha que se realiza na Amazônia não come da mesma carne do cinema global, antes ao contrário, este cinema é faminto, mas não passa fome, porque, ainda que o acesso às tecnologias lhes sejam negadas, sabe se aproveitar das tecnologias que lhes foram legadas pelos seus antepassados e ancestrais, é tão simples quanto isso, e nenhum menu se leva à mesa, a comida há que ser plantada e colhida em diálogo com a natureza, numa fala que é mais escuta, é poética, desinteressada do mercado, apesar de querer ganhar e ganhar dinheiro, porque basta ir no mar e sacar o peixe ainda que ele esteja contaminado, vai de canoa, vai de remo, de barco, popopô, embarcado, à cavalo, de bicicleta, de buzu, mas vai, vai com o estandarte do santo, vai na maresia, e debaixo do sol, vai comendo pelas beiras atééééééé que você nem percebe que este cinema está entre nós como deus, e ele nos move, é o romper da aurora, o fechar a cicatriz, segurar no peito a dor, e andar em frente como um ator de cinema marginal, entretanto, o cinema amazônida, ele não é marginal, é de guerrilha, uma pequena guerra, guerrazinha, uma guerra isolada, de “isola”, ele se instala no momento em que a ideia se liga à câmera da mente e desta como um vulcão explode em vontades de potências mas não de verdades, num diálogo com o cinema de vanguarda (Soviético), o neorrealismo (Italiano), a nouvelle vague (Francesa), o cinema novo (Brasileiro), e o cinema Pobre (Cubano), sendo, portanto, uma pratica de intervenção artística de dimensão histórica global, que procura dar respostas à dinâmica dos processos políticos, com reflexões e ações de natureza estética audiovisual, na qual os realizadores se autoproclamam independentes, pensam de forma crítica, e agem com liberdade criativa na condução de seus despojados projetos cinematográficos, com filmes tão gritados e ensolarados quanto os de Glauber, desavergonhados de suas poéticas, estendendo-as do real à criação, indiferenciados, sem ser e sem objeto, sem sujeito e nenhum ente, com uma língua que pode até ser um dialeto, ou um ruído, um movimento tremido e desfocado, um grande plano geral, fixo, todo mundo dizendo o que quer dizer e do jeito que sabe dizer e diz, com os instrumentos através dos quais possa vir a dizer, fazendo-se entender para quem entendeu a mensagem, não é problema meu, recado tá dado, pobres e sem economia de esforços, mas artísticos, de natureza espontânea, numa ação autoral intensa, violenta, no sentido da revelação das suas potencialidades e possibilidades, hoje ancoradas em pesquisas e práticas autorais, como “Tecnologia do Possível”, “Poéticas da Gambiarra”, e “Estéticas de Guerrilhas”, conceitos que tenho desenvolvido e difundido em textos e artigos, que se pretendem ensaísticos e aforismáticos e até semióticos.

© Carpinteiro



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